Eu, Daniel Blake – I, Daniel Blake

•janeiro 27, 2017 • Deixe um comentário

Eu, Daniel Blake – I, Daniel Blake (Ken Loach. 97’ , 2016)

Imagine o drama de Daniel Blake, com excelente atuação do ator Dave Johns. Após anos de trabalho sofre um ataque cardíaco e, por determinação médica, é proibido de trabalhar. Foi recorrer ao auxilio financeiro ao trabalhador, um beneficio concedido pela seguridade social do governo inglês. Após uma avaliação de um técnico da agência social, foi considerado apto a voltar a trabalhar, ao final das contas ele pode andar mais de 50 metros e levantar o braço para botar algo no bolso.da camisa.

E agora? Não pode voltar ao trabalho, mas é obrigado a procurar emprego. Recorrer ao seguro desemprego então? Mas só pode recorrer através de preenchimento de formulário via internet. Mas como? Missão difícil para um velho carpinteiro analfabeto digital. Então a previdência vai se tornando mais difícil e burocratizado para este nglês, idoso e um verdadeiro gentleman que,ao que parece sempre levou uma vida sofrida e integra.

Enquanto ele dá volta em círculos, segundo sua própria
avaliação, conhece Katie com dois filhos passando por uma situação de penúria. Resolve ajuda-la. Mais uma confusão que só faz as coisas irem embaraçando pro lado dele. Não bastasse isto tem seu vizinho que compra tênis falsificado da China e pede para entregar em seu endereço, para depois revender no bairro.

Enfim o périplo de Daniel Blake é trágico. Aponta por um momento de perigo às políticas publicas do Estado de bem estar social e do emprego neste inicio de século na Inglaterra e na Europa. Quando não é possível acabar com ele deve-se dificultar o acesso, assim, o corroendo pelas beiradas. Aqui pelas bandas do sul, como tivemos apenas arremedos deste Estado do Bem Estar, o que vemos são milhares de Daniels e Katies no Brasil passando por situação semblante, mas, mas muito pior que a do velho carpinteiro inglês.

O filme é excelente. Não tenho certeza se é triste, apesar de a maioria ter saído em silêncio da sala, mas aponta para a esperança e a solidariedade.

Valeu cada centavo do meu ingresso.

Eu, Daniel Blake

 

A Altivez e Elegância de Sônia Braga de volta ao cinema.

•setembro 26, 2016 • Deixe um comentário

A Altivez e Elegância de Sônia Braga de volta ao cinema.

Ontem assisti Aquarius (Kleber Mendonça Filho,206)

Serei curto e direto::que filme bonito!. Sonia Braga dá um show de interpretação, além de conferir à personagem uma elegância, uma altivez que, ao meu ver, homenageia a mulher brasileira madura e independente. O filme é correto, certinho do começo ao fim no que se propõe a fazer, com o orçamento que teve. Nele a protagonista sessentona que vive só num apartamento de frente para a praia, no Recife, não apenas convive com suas memórias, com as quais sabe muito bem lidar ( ponto para o diretor, a solidão esta nos objetos, não demonstrada na interpretação da personagem, muito comum no cinema brasileiro recente), mas têm que lidar com o inferno do mundo alheio, tem que conviver e enfrentar o assédio de uma construtora que se utiliza de expedientes escusos para comprar seu apartamento. Também sabe lidar e supera de forma matriarcal a incompreensão de certos filhos. De resto é aquilo mesmo que está na sinopse que copio aí abaixo.

A trilha sonora é excelente. De Taiguara à Maria Bethânia, assim, se encaixando como uma luva.

Eu já o considero um dos melhores filmes nacionais, apesar da co-produção com a França, produzido nos últimos anos.

Fiquei feliz por ter assistido e que recomendo as mulheres maduras e independentes assistirem. O filme me lembrou o filme Lemon Tree (Etz Limon, de Eran Riklis, 2008), que deu prêmios de melhor atriz a Hiam Abbas, em premiações no cinema europeu, onde uma palestina sessentona e viúva luta na justiça israelense contra o ministro de defesa de Israel, quando este, ao mudar para a vizinhança, quer derrubar suas arvores de limão .

Fico triste, por outro lado, que uma certa parcela do publico não vá assistir por causa da polêmica que causou pelo “Fora Temer”. Estamos vivendo um momento em que a Democracia para poder se realizar neste país precisa de que a informação circule, assim, sem cortes, censuras e preconceitos. Apenas assim a verdade aparece e por tabela, salvamos filmes bonitos como este do desconhecimento da plateia brasileira.

SINOPSE

Clara (Sonia Braga) mora em um apartamento localizado na Avenida Boa Viagem, no Recife, onde criou seus filhos e viveu boa parte de sua vida. Interessados em construir um novo prédio no espaço, os responsáveis por uma construtora conseguiram adquirir quase todos os apartamentos do prédio, menos o dela. Por mais que tenha deixado bem claro que não pretende vendê-lo, Clara sofre todo tipo de assédio e ameaça para que mude de ideia..( Wikipédia – https://pt.wikipedia.org/wiki/Aquarius_(filme)

Ver Trailer

 

A Casa Galeria e Mônica Kaiser B. Aranha: a Arte Contemporanea e a última modernista.

•março 21, 2015 • Deixe um comentário
Monica repaginada - Foto de Claudio Cammarota

Monica repaginada – Foto de Claudio Cammarota

Existe um dado muito importante que diferencia Modernismo e a Arte Contemporânea: a abordagem da relação tempo e espaço na representação dos objetos. O Modernismo vem da tradição newtoniana e da geometria euclidiana de representação do espaço, que prendia o objeto sobre uma superfície, geralmente plana, de traços retos e curvas, que privilegiava como material o bronze e toda sorte de ligas metálicas, o mármore, o concreto, terras fornadas. Enfim, uma arte baseada numa filosofia e ciência que concebia o espaço como aquele da distancia entre pontos – nas ciências humanas teve sua tradição originada no Iluminismo e Racionalismo Universal. Era uma arte industriosa que se consagrou com o Fordismo e suas cidades duras, como Detroit e, no mundo subdesenvolvido, como São Paulo.

Vejo a obra da Mônica Kaiser como herança deste contexto, mesmo com seus esforços de repaginação. Porém, é de uma força e beleza singular, que deveria ser mais reconhecida ao seu tempo. Não o foi.

A contemporaneidade na arte aparece quando a representação de objetos e corpos assimila a ideia da relatividade do espaço que, desde o inicio do século XX, já revolucionava as ciências físicas, mas que, apenas na década de 1970, proporcionou uma nova abordagem da relação espaço e tempo nas Ciências Humanas e na Arte como um todo. Esta abordagem é aquela que diz respeito a superfícies, agora originadas através da relação entre os objetos. Então, na Arte, o objeto se livra da superfície plana e gravitacional pré-existente e passa ele mesmo a criar superfícies: a pintura saiu do quadro, as esculturas saíram dos pedestais e, houve até mesmo um boom das instalações na transição entre a década de 70 e 80, não é? Então, os objetos e corpos criam espaço e nele se encontram ou se perdem. Cindy Sherman de fato tornou-se um ícone desta relação, assim como, penso, Laurie Anderson em seguida.

Entendo que o Brasil, nas artes plásticas, é mais conhecido pelo seu excelente Modernismo do que pela Ate Contemporânea – apesar das exceções e do esforço das Bienais e MAC-USP. Porém, é um país que não terminou o projeto da Modernidade – o projeto da universalização da igualdade, da democratização da cultura, da ciência, dos direitos do homem e do cidadão. Tornou-se um país que cresceu e não distribuiu riqueza, além do que, apenas modernizou as cidades até a década de 70 – elas ainda se e erguem sobre uma infraestrutura moderna desgastada. Compreendo hoje que um país que não consegue democratizar o acesso às oportunidades de riqueza e desenvolvimento social, não consegue ser contemporâneo. O Brasil, durante e pós década de 70, tornou-se um Abaporu de sentido contrário: um país de corpo grande e cabeça pequena – das elites. Enquanto for dominado por uma elite que concentra a riqueza em sua forma mais ampla, não poderá ser contemporâneo.

Mas há uma esperança no fim do túnel. Ela vem com a Globalização das redes e da informação. Hoje a uma janela de oportunidades para a divulgação da arte e até sua comercialização, ainda restrita a poucos espaços em cidades como São Paulo e Rio de Janeiro – de curadoria sofisticada, mas ainda elitizada. Esta esperança vem de lugares escondidinhos desta cidade, da periferia, sobretudo, mas sempre conectados com o mundo.

Então eu fico feliz de saber sobre o empreendedorismo corajoso da artista plástica Milenna C. Saraiva que decidiu também ser galerista, refundando a Casa Galeria, localizada na Vila Olímpia, em São Paulo. E neste empreendedorismo abriu oportunidade para mais de 20 artistas que ainda não conseguem espaço para serem vistos, criticados, reconhecidos e comercializados da forma como merecem. A proposta da Casa Galeria é ser um espaço para arte contemporânea e multimídia sendo que, Milenna, também conta com parceiros talentosos como Francis Fargo (Fotografo e artista Visual), Ricardo Soares (Ilustrador e Artista Visual) e Loly Demercian (Curadora de arte).

Enfim, Milenna C. Saraiva conquistou minha simpatia porque, também, em seu garimpo, redescobriu Mônica Kaiser, a última modernista, assim, da forma como ela merece, lhe cedendo um cantinho na galeria para sua nova e antiga produção repaginada.

Mônica Kaiser e Milenna C. Saraiva

Para saber mais: web site CASA GALERIA   web site da Mônica Kaiser: http://galeriapulsar.wix.com/monicaaranha

Até,

Marcio P. Santos

Heli: Um excelente filme de Amat Escalante, um cineasta autodidata que ganhou Cannes de 2013

•outubro 5, 2013 • Deixe um comentário

Amat Escalante, um cineasta autodidata, neste seu terceiro  filme ganhou o prêmio do júri de melhor direção de 2013, no Festival de Cannes. Na realidade, também, ganhou outros prêmios nos dois anteriores. Tornou-se um diretor realmente talentoso. Em Heli toda produção parece estar na medida certa:  Atores, fotografia, som..até o roteiro é basico e justo, evolui de uma sinopse perfeita:

“Estela tem 12 anos, vive em uma pequena cidade mexicana e está perdidamente apaixonada por um jovem cadete da polícia. Ele quer fugir com ela e se casar. Para realizar o seu sonho, ele desvia alguns pacotes de droga. A família de Estela terá que enfrentar a violência que devasta a região.”

Este filme é uma luva de pelica dando um tapa num certo corporativismo que esta dominando a arte de se fazer cinema no Brasil, porque, aqui,  ultimamente falar que se é autodidata em cinema parece algo criminoso. No país em que a maioria dos cineastas são noveleiros, realmente se acredita que é condição para ser diretor de cinema é ter um diploma. Nada mais falso, nada mais corporativo. Os editais de fomento, cada vez, mais estão cerceando e corporalizando as oportunidades de se conseguir o pouco de verba reservado ao cineasta iniciante. Este processo, de alguma forma, tem de parar. E o melhor remédio é seguir trabalhando sem maiores pretensões e, de vez em quando, apresentando, premiando e indicando, talentos como Amat Escalante, que dirigiu um dos melhores filmes deste ano.

Depois de estrear no Indie Festival de 2013, talvez passe na Mostra Internacional de Cinema de São Pauo. Ao que parece pode entrar no circuito da da cinepaulistânia (trecho que vai da Augusta até a Brigadeiro Luiz Antônio) .

para saber mais: http://www.indiefestival.com.br/2013/sp/film.php?cod=11

Neste dia, em 27 de setembro de 1940, a Barbárie assassinou um grande homem

•setembro 27, 2013 • Deixe um comentário
Walter Benjamin - Berlim, 15 de julho de 1892 — Portbou, 27 de setembro de 1940

Walter Benjamin – Berlim, 15 de julho de 1892 — Portbou, 27 de setembro de 1940

Rolf Tedemann, organizador e tradutor de “Passagens” de Walter Benjamin, escreveu no prefácio desta obra que, se tivesse sido terminada,  seria nada menos do que uma filosofia material da história do sec. XIX. Seria, realmente, uma obra-prima. Hoje dela temos apenas os fragmentos e, mesmo assim, é considerada um dos mais importantes livros inacabados do séc. XX. Faz parte dos escombros da II Grande Guerra, dos quais ainda continuamos juntando os pedaços.

No Brasil, as Passagens, foi traduzida apenas em 2006, por um grupo de intelectuais liderados por Wlli Bolle, Olgaria Mattos, etc., dentro outros da FFLCH-USP. Junto a eles alguns alunos de pós-graduação, selecionados a dedo e sequestrados  pelas mãos e pelo olhar de águia do Willi. No meio destes estava eu, um entusiasta que sempre perseguiu os aforismos deste enigmático  filosofo.

“Huh La lá…um Geógrafo. O senhor bem que poderia fazer o mapa de Paris para o livro, né?”(Willi, enquanto no meio da sala, apontava o dedo para mim)

“Quem…Euuuu?” (Marcio)

Tá lá, assim que acabei contribuindo para a tradução brasileira da Obra Passagens que, quase 80 anos depois de sua morte, aterrissou no Galicismo acadêmico brasileiro da FFLCH, e no DG-USP. Um pequeno mapa com a localização das passagens, alguns lugares e os monumentos que inspiraram a reflexão de um dos maiores pensadores do sec. XX.

Walter Benjamin passou mais de uma década, nos anos 30, alertando a Social Democracia Alemã sobre o surgimento da barbárie nazista. Ao fugir desta barbárie que se expandia por toda a Europa, foi preso em Portbou, Espanha, em 1940.  Suicidou-se em condição ainda considerada misteriosa. Mais do que um suicídio, foi um ato de coragem visionário, pois sabia que seria entregue a Gestapo, como foram alguns de seus amigos, e assim, fatalmente terminaria morrendo em num campo de concentração.

Neste dia a Barbárie assassinou um grande homem.

A GAROTA DE LUGAR NENHUM

•setembro 20, 2013 • Deixe um comentário

A GAROTA DE LUGAR NENHUM

Imagina você que um homem solitário, Michel, num certo dia pela manhã, abre a porta de seu apartamento e encontra uma bela mulher, Dora, que acaba de ser espancada na escada.

Você começa a assistir um filme sobre as ilusões humanas, uma tentativa de um escritor escrever sobre as ilusões da a vida, o desejo, o tempo, a memória. No meio destas imaginações, a volúpia, a cor, o desejo, o mistério e muita beleza se passam dentro daquele apartamento, acompanhadas de belas imagens externas. Isto é Jean-Claude Brisseau conduzindo você no seu mais recente filme. La fille de nulle part – A garota de lugar nenhum (França, 2012, 91min.)

Em cartaz na Mostra INDIE 2013. Ver a programação

O FOTOGRAFO HUMANISTA

•abril 8, 2013 • Deixe um comentário

Vejo um paradoxo existencial do claro-escuro, do contraste, entre a luz e trevas, do “Pioneiro Cego” (1962) de Antanas Sutkus, que interpreto dessa forma: é um olhar melancólico, sincero, cristalino, lindo…mas que enxerga o escuro enquanto a luz que esculpe sua face nos oferece a beleza da foto.

Dica: No fim da exposição não esqueça de pedir um catalogo: é gratuito e excelente, quase um livro com exemplares expostos.

AONDE VER: Caixa Cultural São Paulo – exposição:Antanas Sutkus: Um olhar livre”– ATÉ 21/04